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Saúde

Quem prescreve cannabis medicinal no Brasil?

Estudo da USP e da UFF mostra o peso da capacitação médica e revela quais condições e produtos aparecem com maior frequência nas prescrições.

Quem prescreve cannabis medicinal no Brasil? Pesquisa traça perfil dos médicos

Uma pesquisa com 333 médicos brasileiros ajuda a entender como funciona a prescrição de produtos derivados de cannabis no país. O estudo, conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo, USP, e da Universidade Federal Fluminense, UFF, foi publicado em 31 de agosto de 2026 na revista científica Pharmacoepidemiology.

O levantamento analisou as respostas de médicos de diferentes regiões entre setembro de 2024 e março de 2025. Entre os principais resultados estão a importância da formação profissional, a concentração das prescrições no atendimento privado e a presença expressiva de produtos importados.

O que a pesquisa encontrou

Dos 333 participantes, 305 afirmaram prescrever produtos derivados de cannabis. Outros 28 disseram que ainda não realizavam esse tipo de prescrição.

Entre os prescritores, 76,1% haviam feito alguma capacitação específica sobre cannabis medicinal. No grupo de médicos que não prescreviam, apenas um profissional informou possuir essa formação.

Na análise estatística, a capacitação foi o fator mais fortemente associado à prescrição. O resultado não comprova que fazer um curso, isoladamente, leva o médico a prescrever. Ainda assim, mostra que o conhecimento técnico pode ter um papel importante na decisão de trabalhar com essa alternativa terapêutica.

Entre os profissionais que não prescreviam, 46,5% apontaram a falta de conhecimento ou de formação específica como principal motivo.

Saúde mental, neurologia e dor lideram as indicações

Os transtornos mentais e comportamentais representaram 37,4% das indicações relatadas pelos participantes. Em seguida apareceram as doenças do sistema nervoso, com 31,4%, e condições relacionadas a sintomas gerais, incluindo dor crônica ou inespecífica, com 16,1%.

CBD, CBD associado ao THC e produtos à base de THC foram as composições mais mencionadas. Óleos e extratos apareceram como as formas farmacêuticas mais utilizadas, principalmente pelas vias oral e sublingual.

A frequência dessas prescrições não significa, porém, que o nível de evidência seja igual para todas as condições. O estudo descreveu as práticas relatadas pelos médicos, mas não avaliou a eficácia dos produtos, as doses utilizadas ou os resultados clínicos de cada tratamento.

Atendimento privado concentra as prescrições

O consultório particular era o principal ambiente de atuação de 67,9% dos prescritores entrevistados.

Entre os médicos que não prescreviam, o serviço público apareceu com maior frequência. Na análise ajustada, profissionais com atuação predominante no SUS ou em planos de saúde apresentaram menor probabilidade de prescrever cannabis do que aqueles que trabalhavam principalmente na prática privada.

Esse resultado chama atenção para uma possível desigualdade de acesso. Pacientes que dependem exclusivamente do sistema público ou da saúde suplementar podem encontrar mais dificuldades para chegar a profissionais com experiência no tratamento. A expansão do acesso depende não apenas da formação médica, mas também de protocolos assistenciais, avaliação de custo e efetividade, mecanismos de reembolso e incorporação das terapias aos serviços de saúde.

Produtos importados e associações continuam relevantes

Entre as marcas comerciais identificadas nas respostas, 75,8% eram importadas e 24,2% nacionais. Os pesquisadores encontraram menções a 44 marcas estrangeiras e oito brasileiras.

Esse percentual não representa participação de mercado nem significa que três quartos de todos os produtos vendidos no Brasil sejam importados. O dado mostra quais marcas foram lembradas pelos participantes da pesquisa.

As associações de pacientes também mantêm presença importante. Produtos associativos foram mencionados por 40,7% dos prescritores, confirmando que o acesso brasileiro não está restrito às farmácias e à importação individual.

O que o estudo não permite concluir

Embora tenha abrangência nacional, a pesquisa não representa todo o universo de médicos brasileiros.

Os participantes foram recrutados por meio de divulgação aberta na internet. Esse modelo de amostragem pode ter atraído mais profissionais que já se interessavam por cannabis medicinal, o que ajuda a explicar por que 91,6% dos entrevistados eram prescritores. Portanto, não é correto afirmar que 91,6% dos médicos do país prescrevem cannabis: o levantamento deve ser interpretado como um retrato exploratório dos profissionais que participaram.

Também não é possível concluir que capacitação, local de trabalho ou especialidade sejam causas diretas da prescrição. O estudo identificou associações estatísticas, não relações de causa e efeito.

O primeiro raio X da prescrição de cannabis no Brasil

O estudo mostra que o avanço da cannabis medicinal não depende apenas de novas regras ou da entrada de produtos no mercado.

A formação dos profissionais continua sendo um dos pontos centrais. Ao mesmo tempo, a concentração no atendimento privado, a dependência de importados e a falta de informações padronizadas sobre formulações, doses e resultados revelam obstáculos que ainda precisam ser enfrentados.

Para pacientes, o levantamento reforça a importância de buscar profissionais habilitados e acompanhamento individualizado. Para os médicos, evidencia a necessidade de educação continuada baseada em evidências, com independência em relação à promoção comercial.

Perguntas frequentes

A pesquisa mostra que a maioria dos médicos brasileiros prescreve cannabis?

Não. Os participantes foram recrutados por divulgação aberta na internet, o que atraiu mais profissionais já interessados no tema. Os 91,6% de prescritores refletem esse grupo específico, não o total de médicos do país.

Onde se concentram as prescrições de cannabis medicinal?

No atendimento privado. Médicos com atuação predominante no SUS ou em planos de saúde mostraram menor probabilidade de prescrever do que os que atuam principalmente na prática particular.

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Fonte: Visacri MB e colaboradores (Takara CT et al.). Exploring the Medical Prescription of Cannabis sp.-Derived Products in Brazil: A National Cross-Sectional Survey. Pharmacoepidemiology, publicado em 31 de agosto de 2026.

Conteúdo de caráter educativo e informativo. Não substitui orientação médica ou jurídica individualizada.