Um estudo realizado em Israel acompanhou durante dez anos pacientes com dor lombar crônica que iniciaram tratamento com cannabis medicinal. Entre os participantes que chegaram ao final do acompanhamento, os pesquisadores observaram reduções expressivas no consumo de opioides, na intensidade da dor e na incapacidade funcional.
A pesquisa foi publicada em 14 de setembro de 2026 no European Spine Journal e envolveu pesquisadores do Rabin Medical Center, da Universidade de Tel Aviv e da Clalit Health Services. O longo período de acompanhamento e o número de pacientes tornam o estudo uma contribuição importante para a investigação da cannabis medicinal no cuidado da dor crônica.
Quem participou do estudo
A pesquisa analisou dados de 1.000 pacientes atendidos entre 2015 e 2024 em um centro de saúde de Israel.
Todos tinham dor lombar crônica confirmada por exames de imagem e utilizavam opioides continuamente havia pelo menos um ano. Os participantes também haviam apresentado resposta insuficiente a tratamentos como fisioterapia, anti-inflamatórios não esteroides e terapia com opioides. Nenhum deles havia usado cannabis anteriormente.
A idade média era de 48,9 anos. Os diagnósticos mais frequentes incluíam estenose da coluna, degeneração de discos intervertebrais e dor lombar de origem vertebral. Parte dos pacientes apresentava mais de uma alteração estrutural.
Dos 1.000 participantes iniciais, 638 completaram os dez anos de acompanhamento, uma taxa de permanência de 63,8%.
Uso de opioides caiu 89,8%
Entre os 638 pacientes que completaram o estudo, o consumo médio diário de opioides caiu de 62,8 para 6,4 miligramas equivalentes de morfina, uma redução média de 89,8%.
Ao final dos dez anos:
- 91,2% reduziram o uso de opioides em pelo menos 50%;
- 6,6% interromperam completamente o consumo;
- a redução mais acentuada aconteceu durante o primeiro ano;
- o resultado permaneceu relativamente estável ao longo do acompanhamento.
A diminuição dos opioides foi definida pelos médicos de acordo com a resposta clínica de cada paciente. O resultado reforça o potencial da cannabis medicinal como parte de estratégias destinadas a reduzir a exposição prolongada a esses medicamentos.
Dor e capacidade funcional também melhoraram
A intensidade média da dor foi medida em uma escala de zero a dez. Entre os participantes que completaram o acompanhamento, a pontuação caiu de 8,71 para 1,37, uma redução de 84,2%.
A incapacidade funcional foi avaliada pelo Índice de Incapacidade de Oswestry, instrumento utilizado em estudos sobre problemas da coluna. A pontuação média caiu de 52,9% para 36,8%, uma melhora relativa de 30,4%.
Ao final do estudo, 96,6% dos participantes alcançaram uma redução da dor considerada clinicamente relevante. Outros 62,1% atingiram o patamar estabelecido para melhora significativa da capacidade funcional. Os resultados indicam que os benefícios observados não ficaram restritos à percepção da dor: parte expressiva dos pacientes também apresentou melhora em atividades afetadas pela condição lombar.
Menor uso de outros medicamentos
O estudo também registrou diminuição no uso de diferentes classes de medicamentos:
- tramadol e tapentadol: queda de 84 pontos percentuais;
- benzodiazepínicos: queda de 73,5 pontos percentuais;
- antidepressivos ISRS: queda de 71,9 pontos percentuais;
- gabapentinoides: queda de 30,7 pontos percentuais.
Os resultados apontam para uma possível redução da polifarmácia, especialmente relevante em pacientes que convivem com dor crônica e utilizam vários medicamentos simultaneamente. Qualquer ajuste de opioides, benzodiazepínicos ou outros fármacos, no entanto, deve ser realizado com acompanhamento profissional, considerando dose, tempo de uso, resposta clínica e risco de sintomas de abstinência.
Como a cannabis medicinal foi utilizada
Os pacientes receberam produtos de fabricantes licenciados, sob supervisão médica e de acordo com a regulamentação israelense.
Foram utilizadas flores secas para vaporização e óleos administrados por via oral ou sublingual. A combustão foi evitada para reduzir riscos respiratórios.
Nos produtos com predominância de THC, o tratamento geralmente começou com doses entre 2,5 e 5 miligramas. Os ajustes foram feitos gradualmente, conforme a resposta e a tolerabilidade de cada paciente, seguindo o princípio de começar com doses baixas e aumentar lentamente.
O que o estudo mostrou sobre segurança
Eventos relacionados à tolerabilidade foram registrados em 11,4% das consultas. Eventos psiquiátricos graves apareceram em 0,02% dos atendimentos.
Segundo os pesquisadores, nenhum abandono foi atribuído a evento adverso intolerável, ausência de eficácia ou desenvolvimento de transtorno por uso de cannabis. Ainda assim, produtos com THC podem causar efeitos psicoativos e exigem atenção a fatores como dose, idade, histórico psiquiátrico, interações medicamentosas e condução de veículos.
Pontos importantes para interpretar os resultados
O estudo oferece os dados de acompanhamento mais longo já publicados sobre cannabis medicinal em pacientes com dor lombar crônica.
Os números, porém, correspondem principalmente aos 638 participantes que completaram os dez anos. Outros 362 deixaram o acompanhamento por preferência pessoal, mudança de região, perda de contato ou morte sem relação com o tratamento.
A pesquisa acompanhou pacientes em condições reais de atendimento e permitiu diferentes produtos e ajustes de dose, o que aproxima os resultados da prática clínica, embora não permita identificar uma única formulação ou dose que produza a mesma resposta em todos os pacientes.
Os próprios pesquisadores consideram os resultados promissores e defendem novos ensaios clínicos controlados, com formulações padronizadas e grupos mais diversos. O estudo também não propõe que todos os pacientes com dor lombar devam utilizar cannabis: a avaliação precisa considerar diagnóstico, intensidade dos sintomas, tratamentos anteriores, medicamentos em uso e riscos individuais.
O que isso significa para quem trata no Brasil
A publicação fortalece a investigação da cannabis medicinal como possível estratégia poupadora de opioides no cuidado da dor crônica. Esse tema é especialmente relevante para pacientes que utilizam opioides por períodos prolongados, apresentam resposta insuficiente aos tratamentos convencionais ou convivem com efeitos adversos e polifarmácia.
Para os médicos brasileiros, o trabalho oferece dados de longo prazo que podem ajudar a orientar decisões individualizadas e incentivar novas pesquisas. Para os pacientes, mostra que a cannabis medicinal pode ser considerada dentro de um plano terapêutico mais amplo, sempre com avaliação e acompanhamento profissional.
A escolha do produto, da proporção entre CBD e THC, da dose e da via de administração deve considerar as características de cada pessoa. A eventual redução de opioides também precisa ser gradual e supervisionada.
Perguntas frequentes
O estudo significa que cannabis substitui opioides para qualquer pessoa com dor lombar?
Não. Os resultados vêm de pacientes acompanhados individualmente por médicos, com ajuste gradual de dose. Qualquer decisão sobre opioides exige avaliação e acompanhamento profissional.
Os resultados valem para todos os que iniciaram o tratamento?
Referem-se principalmente aos 638 pacientes que completaram os dez anos de acompanhamento, 63,8% dos 1.000 que começaram o estudo.
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