Tratamento com Cannabis Suporte ao Prescritor

Interações medicamentosas com canabinoides

Entenda como CBD, THC e medicamentos de uso concomitante podem compartilhar vias metabólicas ou somar efeitos clínicos.

Consultar interações
Frascos âmbar de medicamento sem rótulo comercial, cápsulas em placa de Petri, vidraria de laboratório e microscópio sobre fundo branco.
Imagem ilustrativa de contexto laboratorial. Não representa produto, marca ou recomendação terapêutica.

Por que ocorrem interações entre o CBD e medicamentos?

Porque o CBD é um inibidor enzimático.

O CBD é metabolizado no fígado, principalmente pelas isoenzimas do complexo enzimático citocromo P450 (CYP450) CYP2C19 e CYP3A4 e, adicionalmente, CYP2C9 e CYP2D6. Por outro lado, ele também é um potente inibidor de todas elas.

Os canabinoides Δ9-THC, CBD e CBN (canabinol) também são potentes inibidores de enzimas de glicuronidação UDP-glicuronosiltransferase (UGT) 1A6, 1A9, 2B4 e 2B7, e de inibição secundária de uma série de UGTs adicionais, incluindo UGT2B17 do CBD e CBN, e UGT2B10 do CBN. Portanto, seu metabolismo pode ser afetado por indutores e inibidores enzimáticos dessas enzimas, o que torna difícil prever o impacto clínico dessas interações no paciente, apesar de não ter consequências graves.

Os dois tipos de interação

Interação farmacocinética

O canabinoide ou o medicamento altera a absorção, o metabolismo, o transporte ou a eliminação da outra substância. Como consequência, sua exposição no organismo pode aumentar ou diminuir.

Vias envolvidas: enzimas do citocromo P450, glicuronidação e transportadores como a glicoproteína P.

Interação farmacodinâmica

As substâncias podem somar ou modificar seus efeitos, mesmo sem alteração relevante das concentrações plasmáticas. Isso pode ocorrer, por exemplo, com sedação, tontura, alteração psicomotora ou efeitos cardiovasculares.

Sinal de alerta comum: associação com outros depressores do sistema nervoso central.

Como o fígado e o CYP450 participam

As enzimas do citocromo P450, presentes sobretudo no fígado, metabolizam grande parte dos medicamentos e também os canabinoides. Quando duas substâncias dependem da mesma enzima, a exposição de uma delas pode se alterar.

Na administração oral, a absorção — e portanto a exposição sistêmica — ocorre antes da metabolização hepática. Na via sublingual não há essa etapa de absorção digestiva: a substância alcança diretamente a circulação.

Metabolismo intermediário ou previsto

A enzima atua na velocidade esperada e a exposição ao medicamento permanece dentro da faixa prevista.

Inibição

A atividade da enzima diminui. O fármaco se acumula antes da via metabólica e, se depende dela para ser eliminado, sua exposição pode aumentar.

Indução

A quantidade ou a atividade da enzima aumenta. A metabolização é acelerada e a exposição ao medicamento pode diminuir.

Substrato é a substância metabolizada por determinada enzima. Um mesmo medicamento pode ser substrato de mais de uma via, e canabinoides como o CBD podem se comportar tanto como substrato quanto como inibidor.

Ponto crítico de interpretação Compartilhar uma enzima não comprova automaticamente relevância clínica. Inibição não significa necessariamente toxicidade, e indução não significa necessariamente perda de eficácia: a consequência depende do medicamento envolvido, da magnitude da alteração, de sua faixa terapêutica e das características individuais de cada paciente.

Interações documentadas, medicamento por medicamento

Impacto do CBD sobre a farmacocinética de medicamentos com estreito intervalo terapêutico — e o inverso. Digite para localizar um fármaco, uma classe ou uma enzima.

32 fármacos listados

Impacto do CBD sobre a farmacocinética de medicamentos com estreito intervalo terapêutico e vice-versa
Fármaco Enzimas e transportadores Tipo de estudo Consequências farmacocinéticas Consequências clínicas
Anticonvulsivantes
Brivaracetam
Interação descrita
CYP2C19 Série de casos · n=5 CBD os níveis plasmáticos de brivaracetam em 95% a 280% Diarreia, sonolência
Carbamazepina (CBZ)
Interação descrita
CYP2C9, CYP3A4 Ensaio clínico; estudo animal · n=3 Nenhum efeito significativo do CBD sobre os níveis plasmáticos de CBZ;
A administração crônica de CBD os níveis plasmáticos de CBZ e CBZ-10,11-epóxido;
Uma dose única de CBD níveis plasmáticos de CBZ e CBZ-10,11-epóxido;
CBZ os níveis plasmáticos de CBD e 7-OH-CBD
Não descritas na fonte
Clobazam
Interação descrita
CYP2C19 Ensaios clínicos · n=87 CBD níveis plasmáticos de clobazam em 60% e os níveis plasmáticos de norclobazam em 500% após 8 semanas de tratamento;
CBD níveis plasmáticos de norclobazam em 500% após 4 semanas de tratamento;
CBD níveis plasmáticos de norclobazam em 2,2 vezes;
CBD níveis plasmáticos de clobazam em 1,2 vezes e os níveis plasmáticos de norclobazam em 3,4 vezes;
Clobazam níveis plasmáticos de 7-OH-CBD em 1,7 vezes;
CBD os níveis plasmáticos de clobazam;
CBD níveis plasmáticos de norclobazam
Sonolência, perda de apetite, sedação, rash
Clonazepam
Sem efeito significativo
CYP3A4 Ensaio clínico · n=25 Sem efeito significativo do CBD sobre os níveis plasmáticos de clonazepam Não descritas na fonte
Eslicarbazepina
Interação descrita
CYP2C19, CYP3A4, UGT1A1 Ensaio clínico · n=4 CBD níveis plasmáticos de eslicarbazepina Não descritas na fonte
Estiripentol
Interação descrita
CYP2C19 Ensaio clínico · n=24 CBD níveis plasmáticos de estiripentol em 1:3;
Estiripentol os níveis plasmáticos de 7-OH-CBD em 29% e os níveis plasmáticos de 7-COOH-CBD em 13%
Sensação de embriaguez desconforto menstrual
Etosuximida
Sem efeito significativo
CYP3A4 Ensaio clínico · n=5 Sem efeito significativo do CBD sobre os níveis plasmáticos da Etosuximida Não descritas na fonte
Fenitoína
Interação descrita
CYP2C9 Ensaio clínico · n=3 Sem efeito significativo do CBD sobre os níveis plasmáticos de fenitoína;
Fenitoína os níveis plasmáticos de CBD
Não descritas na fonte
Fenobarbital
Interação descrita
CYP2C9, CYP3A4 Ensaio clínico · n=5 Sem efeito significativo do CBD sobre os níveis plasmáticos de fenobarbital;
Fenobarbital os níveis plasmáticos de CBD
Não descritas na fonte
Fosfenitoína
Interação descrita
CYP2C9 Fosfenitoína os níveis plasmáticos de CBD Não descritas na fonte
Gabapentina
Interação descrita
Estudo animal CBD níveis plasmáticos e cerebrais de gabapentina (em 30 e 40%, respectivamente) Não descritas na fonte
Lacosamida
Interação descrita
CYP2C9, CYP2C19, CYP3A4 Ensaio clínico; estudo animal · n=20 Sem efeito significativo do CBD sobre os níveis plasmáticos de lacosamida;
CBD níveis plasmáticos de lacosamida no cérebro em 35%;
Lacosamida níveis cerebrais de CBD em 70%
Não descritas na fonte
Lamotrigina
Interação descrita
UGT2B7 Ensaio clínico · n=30 Sem efeito significativo do CBD sobre os níveis plasmáticos de lamotrigina;
CBD níveis plasmáticos de lamotrigina
Não descritas na fonte
Levetiracetam
Sem efeito significativo
Ensaio clínico; estudo animal · n=40 Sem efeito significativo do CBD sobre os níveis plasmáticos de levetiracetam Não descritas na fonte
Oxcarbazepina
Interação descrita
CYP2C19, P-gP Ensaio clínico; estudo animal · n=12 Sem efeito do CBD sobre os níveis plasmáticos de oxcarbazepina;
CBD níveis plasmáticos de oxcarbazepina em 20%;
Oxcarbazepina níveis cerebrais de CBD no cérebro em 120%
Não descritas na fonte
Perampanel
Sem efeito significativo
CYP3A4 Ensaio clínico · n=8 Sem efeito significativo do CBD sobre os níveis plasmáticos de perampanel Não descritas na fonte
Pregabalina
Sem efeito significativo
Ensaio clínico · n=2 Sem efeito significativo do CBD sobre os níveis plasmáticos de pregabalina Não descritas na fonte
Primidona
Interação descrita
CYP2C9, CYP3A4 Primidona os níveis plasmáticos de CBD Não descritas na fonte
Tiagabina
Interação descrita
CYP3A4 Estudo animal CBD níveis cerebrais de tiagabina em 50% Não descritas na fonte
Topiramato
Interação descrita
CYP2C19, P-gP Estudo clínico; estudo animal · n=20 O CBD níveis plasmáticos de topiramato em 30%;
Topiramato níveis plasmáticos e cerebrais de CBD em 70 e 100%, respectivamente
Não descritas na fonte
Valproato
Sem efeito significativo
UGT1A6, UGT1A9, UGT2B7 Ensaio clínico · n=48 Sem efeito significativo do CBD sobre os níveis plasmáticos de valproato e vice-versa Rash
Vigabatrina
Sem efeito significativo
Ensaio clínico · n=3 Sem efeito significativo do CBD sobre os níveis plasmáticos de vigabatrina Não descritas na fonte
Zonisamida
Interação descrita
CYP3A4 Ensaio clínico · n=14 CBD níveis plasmáticos de zonisamida Não descritas na fonte
Antibacterianos
Rifampicina
Interação descrita
CYP2C19, CYP3A4 Ensaio clínico · n=36 Rifampicina os níveis plasmáticos de CBD em 52% Não descritas na fonte
Anti-hemorrágico
Varfarina
Interação descrita
CYP2C9, CYP2C19, CYP1A2 Relato de caso · n=1 Inibição competitiva das enzimas CYP, prejudicando a degradação da varfarina Aumento não linear do RNI
Imunossupressores
Ciclosporina
Interação descrita
CYP3A4 Estudo não clínico CBD níveis plasmáticos de ciclosporina Não descritas na fonte
Everolimus
Interação descrita
CYP3A4, P-gP Relato de caso · n=1 CBD níveis plasmáticos de everolimus Não descritas na fonte
Tacrolimus
Interação descrita
CYP3A4, P-gP Relato de caso · n=1 CBD níveis plasmáticos de tacrolimus Sinais de toxicidade do tacrolimus
Opioides
Metadona
Interação descrita
CYP2C19, CYP3A4 Relato de caso · n=1 CBD níveis plasmáticos de metadona Evento adverso relacionado a opioide (fadiga, sonolência)
Fentanil
Sem efeito significativo
CYP3A4 Ensaio clínico · n=17 Sem efeito significativo do fentanil sobre os parâmetros farmacocinéticos do CBD Não descritas na fonte
Psicotrópicos
Lítio
Interação descrita
Relato de caso · n=1 CBD níveis plasmáticos de lítio Hipersonolência, ataxia, letargia, fraqueza
Outros
Cafeína
Interação descrita
CYP1A2 Ensaio clínico · n=16 CBD níveis plasmáticos de cafeína em 15% - 95%. CBD meia-vida da cafeína para 10,9h Diarreia, de transaminases hepáticas

Legenda: aumenta · reduz · CBD, canabidiol; CBZ, carbamazepina; P-gP, glicoproteína P; 7-OH-CBD, metabólito ativo 7-hidroxicanabidiol; 7-COOH-CBD, metabólito 7-carboxicanabidiol; n, número de participantes.
Fonte: modificado de Lacroix et al. (2024).

Evidência mais recente sobre o tacrolimo Na fonte original, a interação com tacrolimo aparece apenas como relato de caso. Em 2025, um ensaio farmacocinético de Fase I quantificou o efeito em voluntários saudáveis: aumento de cerca de 4,2 vezes na concentração máxima e 3,1 vezes na exposição total. A ficha detalhada mais adiante nesta página traz esses dados.

Como interpretar as fichas

Cada uma das fichas detalhadas responde a cinco perguntas. Essa sequência organiza a leitura e evita transformar uma interação possível em uma conclusão automática.

  1. Existe interação documentada ou apenas potencial?
  2. O que pode acontecer?
  3. Qual é o nível de atenção?
  4. Quais parâmetros estão relacionados ao acompanhamento?
  5. Qual é a força da evidência?

Nível de atenção

Considera a possível gravidade clínica, a faixa terapêutica do medicamento, a magnitude da alteração farmacocinética e a vulnerabilidade do paciente.

Escala: moderado, alto e muito alto nas fichas desta versão.

Força da evidência

Descreve a qualidade dos dados: alta para estudos farmacocinéticos controlados em humanos ou evidência regulatória consistente; moderada para estudos observacionais; baixa para relatos de caso; teórica para dados in vitro ou inferência metabólica.

Os dois eixos são independentes. Uma interação pode ter nível de atenção alto mesmo quando a força da evidência é baixa, caso a consequência potencial seja clinicamente importante.

Cinco interações em detalhe

Para os medicamentos abaixo há dados clínicos suficientes para descrever mecanismo, repercussão e parâmetros de acompanhamento. As demais interações da tabela seguem descritas em nível farmacocinético.

5 medicamentos disponíveis

Tacrolimo

Imunossupressor inibidor da calcineurina

Atenção muito alta Evidência alta

O CBD aumentou de forma expressiva a exposição ao tacrolimo (medicamento de estreita faixa terapêutica) em estudo farmacocinético de Fase I, ao inibir a atividade da enzima CYP3A4.

O que foi observado

Em estudo farmacocinético de fase I com participantes saudáveis, o CBD em estado de equilíbrio aumentou aproximadamente 4,2 vezes a concentração máxima do tacrolimo e cerca de 3,1 vezes a exposição total.

Por que pode acontecer

O tacrolimo é metabolizado principalmente pelas enzimas CYP3A4 e CYP3A5 e também é substrato da glicoproteína P. O CBD pode interferir nessas vias, aumentando a biodisponibilidade e a exposição sistêmica ao tacrolimo. O mecanismo predominante ainda não foi completamente estabelecido.

Possíveis repercussões clínicas

  • Nefrotoxicidade
  • Neurotoxicidade
  • Tremor
  • Hipertensão
  • Alterações metabólicas
  • Outras manifestações relacionadas à exposição excessiva

Parâmetros relacionados ao acompanhamento

  • Concentração sanguínea do tacrolimo
  • Creatinina
  • Função renal
  • Pressão arterial
  • Tremor e manifestações neurológicas
  • Alterações recentes da dose ou formulação do CBD

Qualidade e limitações da evidência

Esta é uma das interações mais bem documentadas desta versão. O nível de atenção é elevado tanto pela magnitude farmacocinética observada quanto pela estreita faixa terapêutica do tacrolimo.

O estudo utilizou CBD purificado na dose de 5 mg/kg duas vezes ao dia em voluntários saudáveis. A magnitude não deve ser extrapolada automaticamente para todas as doses, formulações ou populações transplantadas.

Referências

  • So TY, et al. A Phase I Trial of the Pharmacokinetic Interaction Between Cannabidiol and Tacrolimus. Clinical Pharmacology & Therapeutics. 2025. DOI: 10.1002/cpt.3504

Clobazam

Benzodiazepínico com ação antiepiléptica

Atenção alta Evidência alta

O efeito farmacocinético predominante recai sobre o metabólito ativo N-desmetilclobazam, com possível repercussão sobre sedação e nível de alerta.

O que foi observado

A exposição ao clobazam original sofre alteração relativamente pequena, enquanto a concentração e a exposição ao N-desmetilclobazam podem aumentar de maneira importante. Descrever a interação apenas como “o CBD aumenta o clobazam” não corresponde ao que os estudos mostram.

Por que pode acontecer

O clobazam é convertido em N-desmetilclobazam, metabólito farmacologicamente ativo. O CBD inibe CYP2C19, reduzindo a depuração desse metabólito e aumentando sua exposição. Soma-se a isso o componente farmacodinâmico da associação de dois depressores do sistema nervoso central.

Possíveis repercussões clínicas

  • Sonolência
  • Sedação
  • Fadiga
  • Ataxia
  • Redução do estado de alerta
  • Alteração da tolerabilidade

Parâmetros relacionados ao acompanhamento

  • Intensidade da sedação
  • Nível de alerta
  • Coordenação e equilíbrio
  • Frequência de crises
  • Concentração do N-desmetilclobazam quando clinicamente pertinente
  • Outros depressores do sistema nervoso central

Qualidade e limitações da evidência

Os dados mais robustos envolvem CBD altamente purificado em doses utilizadas no tratamento de epilepsias refratárias, e não representam necessariamente outras formulações ou faixas de dose.

Referências

  • Morrison G, Crockett J, Blakey G, Sommerville K. A Phase 1, Open-Label, Pharmacokinetic Trial to Investigate Possible Drug-Drug Interactions Between Clobazam, Stiripentol, or Valproate and Cannabidiol in Healthy Subjects. Clinical Pharmacology in Drug Development. 2019;8(8):1009–1031. DOI: 10.1002/cpdd.665
  • Anderson LL, et al. Coadministered cannabidiol and clobazam: Preclinical evidence for both pharmacodynamic and pharmacokinetic interactions. Epilepsia. 2019;60(11):2224–2234. DOI: 10.1111/epi.16355

Ácido valproico

Antiepiléptico e estabilizador do humor

Atenção alta Evidência alta para o sinal hepático

Sem aumento farmacocinético clinicamente relevante demonstrado; o sinal principal é de segurança hepática, com maior ocorrência de elevação de transaminases.

O que foi observado

Estudos farmacocinéticos não demonstraram aumento clinicamente relevante da exposição ao valproato pelo CBD. Entretanto, a associação foi relacionada a maior ocorrência de elevação de enzimas hepáticas. Esta ficha não descreve, portanto, um simples “aumento da concentração do valproato”.

Por que pode acontecer

O mecanismo responsável pela maior ocorrência de alterações de transaminases ainda não foi completamente esclarecido.

Possíveis repercussões clínicas

  • Elevação de ALT
  • Elevação de AST
  • Possível lesão hepática
  • Alterações laboratoriais relacionadas à segurança hepática

Parâmetros relacionados ao acompanhamento

  • ALT/TGP
  • AST/TGO
  • Bilirrubinas
  • Fosfatase alcalina conforme contexto
  • Sintomas sugestivos de lesão hepática
  • Dose de CBD
  • Outros medicamentos potencialmente hepatotóxicos

Qualidade e limitações da evidência

A maior parte dos dados vem de populações com epilepsias graves tratadas com CBD purificado em doses relativamente elevadas, o que limita a extrapolação para outros contextos clínicos.

Referências

  • Morrison G, Crockett J, Blakey G, Sommerville K. A Phase 1, Open-Label, Pharmacokinetic Trial to Investigate Possible Drug-Drug Interactions Between Clobazam, Stiripentol, or Valproate and Cannabidiol in Healthy Subjects. Clinical Pharmacology in Drug Development. 2019;8(8):1009–1031. DOI: 10.1002/cpdd.665
  • U.S. Food and Drug Administration. EPIDIOLEX (cannabidiol) oral solution — Prescribing Information. accessdata.fda.gov

Varfarina

Anticoagulante antagonista da vitamina K

Atenção muito alta Evidência baixa

Relatos clínicos de elevação do INR após introdução ou titulação de canabinoides, em medicamento de estreita faixa terapêutica.

O que foi observado

Há relatos clínicos de elevação do INR após introdução ou titulação de CBD e de produtos contendo canabinoides.

Por que pode acontecer

A varfarina utiliza múltiplas vias metabólicas, com papel importante do CYP2C9 para a S-varfarina. O CBD pode inibir vias envolvidas nesse metabolismo.

Possíveis repercussões clínicas

  • Aumento do INR
  • Maior efeito anticoagulante
  • Equimoses
  • Sangramentos
  • Eventos hemorrágicos

Parâmetros relacionados ao acompanhamento

  • INR
  • Equimoses
  • Epistaxe
  • Sangramento gengival
  • Hematúria
  • Melena
  • Alterações recentes de dose, formulação ou frequência de uso dos canabinoides

Qualidade e limitações da evidência

A evidência disponível é baseada principalmente em relatos de caso, utilizando doses, formulações e vias distintas.

Ainda assim, o nível de atenção permanece muito alto devido à estreita faixa terapêutica da varfarina e à possível gravidade de eventos hemorrágicos. É o exemplo mais claro, nesta versão, de evidência baixa com atenção elevada.

Referências

  • Grayson L, Vines B, Nichol K, Szaflarski JP. An interaction between warfarin and cannabidiol, a case report. Epilepsy & Behavior Case Reports. 2017;9:10–11. PubMed: 29387536
  • Damkier P, et al. Interaction between warfarin and cannabis. Basic & Clinical Pharmacology & Toxicology. 2019. PubMed: 30326170
  • Smythe MA, et al. Anticoagulant drug–drug interactions with cannabinoids: A systematic review. Pharmacotherapy. 2023. DOI: 10.1002/phar.2881

Stiripentol

Antiepiléptico

Atenção moderada Evidência alta

Aumento moderado da exposição ao stiripentol documentado em estudo farmacocinético, de magnitude inferior à observada para o tacrolimo e para o N-desmetilclobazam.

O que foi observado

Estudo farmacocinético demonstrou aumento moderado da concentração máxima e da exposição total ao stiripentol durante o uso concomitante de CBD.

Por que pode acontecer

O aumento da exposição ao stiripentol pode estar relacionado à inibição de enzimas metabólicas pelo CBD, embora a contribuição exata de cada via não esteja totalmente estabelecida.

Possíveis repercussões clínicas

  • Sedação
  • Redução do apetite
  • Sintomas gastrointestinais
  • Alteração de tolerabilidade

Parâmetros relacionados ao acompanhamento

  • Sedação
  • Apetite
  • Peso
  • Sintomas gastrointestinais
  • Controle das crises
  • Outros antiepilépticos concomitantes

Qualidade e limitações da evidência

A interação farmacocinética está documentada, porém sua magnitude é inferior à observada para tacrolimo e N-desmetilclobazam.

Os estudos disponíveis têm tamanho amostral limitado e não foram desenhados principalmente para avaliar desfechos clínicos de longo prazo.

Referências

  • Morrison G, Crockett J, Blakey G, Sommerville K. A Phase 1, Open-Label, Pharmacokinetic Trial to Investigate Possible Drug-Drug Interactions Between Clobazam, Stiripentol, or Valproate and Cannabidiol in Healthy Subjects. Clinical Pharmacology in Drug Development. 2019;8(8):1009–1031. DOI: 10.1002/cpdd.665

Medicamentos de estreito intervalo terapêutico

Dois ou mais medicamentos podem competir pelo mesmo sítio enzimático sem que isso tenha efeito clínico significativo, desde que possuam amplo intervalo terapêutico e perfil toxicológico favorável. Esta lista reúne os fármacos em que essa margem é estreita e que, por isso, merecem atenção quando coadministrados com canabinoides.

53 medicamentos listados

Medicamentos de estreito intervalo terapêutico a serem monitorados quando coadministrados com canabinoides
MedicamentoEnzima / metabolismo
acenocumarol (VKA)CYP1A2, CYP2C9, CYP2C19, CYP3A4
ácido micofenólicoUGT1A9, UGT2B7
ácido valproicoCYP2C9, UGT1A9, UGT2B7
alfentanilCYP3A, CYP3A4
aminofilinaCYP1A2, CYP3A4
amiodaronaCYP1A2, CYP2C8, CYP2C19, CYP3A4
amitriptilinaCYP1A2, CYP2B6, CYP2C19, CYP3A4
bussulfanoCYP3A4
carbamazepinaCYP1A2, CYP3A4, UGT2B7
ciclobenzaprinaCYP1A2, CYP3A4
ciclosporinaCYP3A4
clindamicinaCYP3A4
clomipraminaCYP1A2, CYP2B6, CYP2C19, CYP3A4, UGT2B7
clonidinaCYP1A2, CYP3A4
clorindiona (VKA)CYP3A4
desipraminaCYP1A2, CYP2B6
dicumarol (VKA)CYP2C9
difenadiona (VKA)CYP3A4
digitoxinaCYP3A4
di-hidroergotaminaCYP3A4
dofetilidaCYP3A4
dosulepinaCYP2B6
doxepinaCYP1A2, CYP2C9, CYP2C19, CYP3A4
ergotaminaCYP3A4
escetaminaCYP2B6, CYP3A4
etexilato de dabigatranaUGT1A9, UGT2B7
etinilestradiolUGT1A9, UGT2B7
etossuximidaCYP2E1, CYP3A4
everolimusCYP3A, CYP3A4
fenitoínaCYP2C8, CYP2C9, CYP2C19
fenobarbitalCYP2C19
fenprocumon (VKA)CYP2C8, CYP2C9, CYP3A4
fentanilCYP3A4
fosfenitoínaCYP2C8, CYP2C9, CYP2C19, CYP3A4
imipraminaCYP1A2, CYP2B6, CYP2C19, CYP3A4
levotiroxinaCYP3A4
lofepraminaCYP2B6
mefenitoínaCYP1A2, CYP2C19
melitracenoCYP2B6
meperidinaCYP2B6, CYP3A4
nortriptilinaCYP1A2, CYP2B6, CYP3A4
paclitaxelCYP2C8, CYP3A4
pimozidaCYP1A2, CYP3A, CYP3A4
propofolUGT1A9
quinidinaCYP2C9, CYP2E1, CYP3A4
sirolimusCYP3A, CYP3A4
tacrolimusCYP3A, CYP3A4
temsirolimusCYP3A4
teofilinaCYP1A2, CYP3A4
tianeptinaCYP3A4
tiopentalCYP2C19
trimipraminaCYP2B6
varfarina (VKA)CYP1A2, CYP2C9, CYP2C19, CYP3A4

Legenda: VKA, antagonista da vitamina K. Fonte: modificado de Kocis & Vrana (2020).

Esta lista não substitui a tomada de decisão médica. As características individuais do paciente — sexo, idade, perfil genômico, etnia, função hepática, função renal e estado da doença — precisam ser consideradas.

Medicamentos canabinoides prescritos

Como os cinco canabinoides de prescrição afetam o metabolismo de substratos com estreita janela terapêutica.

Medicamentos canabinoides que afetam a atividade de enzimas metabólicas de substratos com estreita janela terapêutica
Medicamento canabinoideAfeta substratos deIndicação aprovada pela USFDA
Dronabinol (Marinol® e Syndros®):
enantiômero (−) trans-Δ⁹-THC
Substratos da CYP2C9
Substratos da CYP3A4
Tratamento de adultos com anorexia associada à perda de peso na SIDA tratamento de adultos com náuseas e vômitos associados à quimioterapia do câncer, e que não responderam adequadamente aos tratamentos antieméticos convencionais
Nabilona (Cesamet®):
Mistura racêmica de isômeros do Δ⁹-THC
Nabilona é inibidor fraco
Substratos da CYP3A4
Nabilona é inibidor moderado
Substratos da CYP2C9
Tratamento de náuseas e vômitos associados à quimioterapia contra o câncer, em pacientes que não responderam adequadamente aos tratamentos antieméticos convencionais
CBD (Epidiolex®):
CBD
CBD inibe
Substratos da CYP2C9
Substratos da CYP2C19
Substratos da UGT1A9
Substratos da UGT2B7
Tratamento de convulsões associadas à síndrome de Lennox-Gastaut ou síndrome de Dravet em pacientes pediátricos com 2 anos de idade ou mais
Nabiximols (Sativex®/Mevatyl):
THC+CBD
Nabiximols inibe
Substratos da CYP3A4
Substratos da UGT1A9
Substratos da UGT2B7
Nabiximols induz
Substratos da CYP3A4
Tratamento de sintomas em pacientes adultos com espasticidade moderada a grave, devido à esclerose múltipla que não responderam adequadamente a outros medicamentos antiespasticidade

Fonte: modificado de Kocis & Vrana (2020). O Sativex® é inibidor reversível das enzimas CYP3A4, CYP1A2, CYP2B6, CYP2C9 e CYP2C19 em concentrações muito superiores às que provavelmente seriam alcançadas clinicamente.

Interações alimentares

A via de administração, a absorção gastrointestinal e a composição da refeição influenciam o metabolismo dos canabinoides e a extensão da interação.

Álcool

Evite o consumo excessivo ou crônico. A ingestão de álcool pode aumentar o risco de sedação.

Toranja

Evite produtos à base de toranja. A toranja inibe o metabolismo do CBD pela CYP3A4, o que pode aumentar sua concentração sérica. Pode ser necessário reduzir a dose de CBD se usado em conjunto.

Erva-de-São-João

Evite. Esta erva induz o metabolismo do CBD pela CYP3A4, reduzindo sua concentração sérica. A dose de CBD pode precisar ser aumentada se usada em conjunto.

Refeições e gordura

Administrar junto aos alimentos, especialmente ricos em gordura, aumenta a biodisponibilidade dos canabinoides. A absorção do CBD é mais consistente quando os macronutrientes das refeições permanecem os mesmos.

Ferramentas de consulta complementares

As interações entre o CBD e medicamentos destacam a necessidade de profissionais de saúde e pacientes ou cuidadores se comunicarem abertamente sobre o uso de produtos de cannabis, a fim de prevenir eventos adversos indesejados.

CANN-DIR

Ferramenta on-line gratuita desenvolvida por Nachnani e colaboradores (2024) que ajuda a identificar potenciais interações medicamentosas entre canabinoides e medicamentos prescritos.

CANN-DIR.psu.edu

DrugBank

Base de dados farmacológica com informações adicionais sobre interações entre canabinoides e medicamentos.

go.drugbank.com/drugs/DB09061

E o THC?

A literatura científica sobre interações medicamentosas é mais extensa para o CBD, especialmente em estudos com canabidiol purificado. Para o THC, muitos dados ainda são indiretos, pré-clínicos ou relacionados à soma de efeitos farmacológicos, como sedação, alteração psicomotora e repercussões cardiovasculares. Por isso, a ausência de uma ficha específica não significa ausência de interação, mas insuficiência de evidência clínica para uma classificação individual.

Perguntas frequentes

Uma interação ocorre quando uma substância modifica o efeito, a concentração ou a segurança de outra. Com os canabinoides, isso pode acontecer por alteração do metabolismo ou pela soma de efeitos farmacológicos.

Sim. O canabidiol participa de vias metabólicas compartilhadas com diversos medicamentos, especialmente enzimas do citocromo P450 e transportadores como a glicoproteína P. Isso pode alterar a exposição sistêmica do medicamento associado, do próprio canabidiol ou de metabólitos ativos.

A existência de uma via compartilhada, porém, não confirma isoladamente relevância clínica: a magnitude depende de dose, formulação, via de administração, duração do uso, função hepática e renal e características do paciente.

Sim. O tetraidrocanabinol também é metabolizado por enzimas do citocromo P450 e pode participar de interações farmacocinéticas.

Além disso, apresenta efeitos farmacodinâmicos próprios, como sedação, alteração psicomotora e repercussões cardiovasculares, que podem se somar aos de outros medicamentos mesmo sem alteração relevante das concentrações plasmáticas. A base de evidências clínicas específicas para o THC é menor do que a disponível para o canabidiol.

Não. A identificação de uma via metabólica compartilhada não confirma, isoladamente, uma interação clinicamente relevante.

A consequência depende da magnitude da alteração farmacocinética, da faixa terapêutica do medicamento envolvido, da existência de metabólitos ativos e da vulnerabilidade do paciente. Muitas interações teoricamente possíveis não se traduzem em efeito clínico mensurável.

Não existe um intervalo universal aplicável a todas as situações. Interações que ocorrem por inibição ou indução enzimática dependem da exposição sistêmica ao longo do tempo, e não apenas do horário de administração, de modo que o simples afastamento entre as tomadas pode não eliminar a interação.

A decisão sobre horários deve ser individualizada, considerando o mecanismo envolvido, o medicamento associado e o contexto clínico.

Não. O canabidiol pode inibir determinadas enzimas e aumentar a exposição a alguns medicamentos, mas também pode participar de mecanismos de indução enzimática, reduzindo a exposição a outros.

Há ainda situações em que o efeito predominante recai sobre um metabólito ativo, como ocorre com o clobazam, e casos em que o sinal clínico é laboratorial, sem aumento farmacocinético demonstrado, como descrito para o ácido valproico.

São dois eixos independentes. O nível de atenção considera a possível gravidade do desfecho, a faixa terapêutica do medicamento, a magnitude da alteração farmacocinética e a vulnerabilidade do paciente. A força da evidência descreve a qualidade dos dados disponíveis.

Uma interação pode ter nível de atenção alto mesmo quando a força da evidência é baixa. A varfarina é o exemplo desse padrão nesta versão.

Não necessariamente. A maior parte dos dados farmacocinéticos robustos foi obtida com canabidiol altamente purificado, frequentemente em doses elevadas.

Produtos de espectro completo apresentam composição diferente, incluindo outros canabinoides e compostos vegetais, além de variação entre lotes e formulações. Esses dados não devem ser extrapolados automaticamente para todas as formulações ou contextos clínicos.

Sim. A magnitude das interações farmacocinéticas descritas na literatura é, em geral, dependente da exposição ao canabinoide. Estudos que documentaram alterações expressivas utilizaram doses relativamente elevadas de canabidiol purificado.

Doses menores podem produzir efeito de menor magnitude, o que não elimina a necessidade de avaliação individualizada, sobretudo diante de medicamentos com faixa terapêutica estreita.

A avaliação considera o conjunto de medicamentos em uso, as vias metabólicas envolvidas, a presença de fármacos com faixa terapêutica estreita, a função hepática e renal, a idade, a fragilidade e a existência de outros depressores do sistema nervoso central.

Também é pertinente verificar se houve titulação recente do canabinoide ou mudança de formulação, e quais parâmetros clínicos e laboratoriais estão disponíveis para acompanhamento.

Referências

Cada ficha traz suas referências específicas. Abaixo, a base científica consultada na elaboração deste conteúdo.

As tabelas desta página foram construídas a partir do material técnico Interações farmacocinéticas entre canabinoides, medicamentos e alimentos, de Bruno José Dumêt Fernandes e Ludmila Assis Magalhães (UFBA).
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Nota científica: os estudos citados envolvem diferentes formulações, doses, desenhos e populações. Seus resultados auxiliam na compreensão das interações medicamentosas com canabinoides, mas não devem ser extrapolados automaticamente para todos os produtos, doses ou contextos clínicos.

Revisão científica

Conteúdo editorial
Tratamento com Cannabis
Coordenação editorial
Flávia Badaró
Revisão técnica
Prof. Dr. Bruno José Dumêt Fernandes
  • Professor de Toxicologia do Curso de Farmácia da Universidade Federal da Bahia (UFBA)
  • Doutor em Toxicologia pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto — USP
Colaboração científica
Ludmila Assis Magalhães
Graduanda em Farmácia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Coautora do material técnico de base.
Colaboração científica
Prof. Dr. Roberto Badaró
  • Professor Titular da Faculdade de Medicina da Bahia (FMB/UFBA)
  • Professor Associado do Cornell University Medical College
  • Professor Visitante da Harvard School of Public Health
  • Professor Titular da University of California San Diego
  • Professor Titular e Pesquisador-chefe do Instituto de Tecnologia em Saúde SENAI-CIMATEC

Histórico de atualizações

Este é um conteúdo vivo, revisado periodicamente conforme surgem novas evidências científicas.